Nos últimos 25 anos, o Brasil se consolidou como terceiro maior exportador agrícola do mundo, campeão em soja, carne, café e suco de laranja, com o minério de ferro mais puro. No ano passado, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US﹩ 100,8 bilhões. Só que o desempenho total tem caído: soja, petróleo e minério de ferro representam metade do que exportamos e a balança comercial do país recuou 6,1% no ano passado.

Pelo segundo ano consecutivo, os produtos básicos superaram os industrializados no total de vendas. Entre 1994 e 2019 a participação do Brasil no valor adicionado à indústria de transformação global caiu de 2,69% para 1,19% . O PIB do Brasil, que chegou a ser o 8º do mundo, ano passado, ficou em 12º no ranking global em 2020, segundo a Austin Rating.

E pode piorar, porque estamos perdendo competitividade justamente no setor que assumiu grande relevância na economia global: Tecnologia da Informação.

Basta dizer que entre as 10 maiores empresas do mundo em valor de mercado atualmente, oito são de tecnologia , uma é do setor de petróleo e uma é um grupo financeiro que também tem participação em empresas de tecnologia. Apple, Microsoft e Amazon valiam, cada uma, mais que o PIB brasileiro.

Enquanto isso, o déficit na balança comercial brasileira de serviços de TIC cresce ano a ano, de acordo com o boletim “Insight Report ” – Panorama do Setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) 2020, que usou dados do Ministério da Economia sobre o setor, de 2014 a 2018. Em 2018, último ano disponível, o Brasil exportou US﹩ 2 bilhões em serviços de TI e importou US﹩ 2,6 bilhões, gerando um déficit de US﹩ 600 milhões.

O mercado global de serviços de TIC alcançou em 2018, segundo o estudo, a cifra aproximada de US﹩ 606 bilhões . Desse montante, a Irlanda liderou a participação em exportações, com 17% do mercado, seguida pela Índia, com 10%, e China, com 8%.

Dos serviços considerados no estudo, 78% corresponderam a serviços de computação, 16% de telecomunicações e 6% de informação. A América do Sul, como um todo, respondeu por menos de 1% das exportações globais de serviços de TIC e o Brasil por 43% da fatia da região, ou seja cerca de 0,4% do total.

Uma prova de que não faz sentido o Brasil depender tão pesadamente das commodities, que costumam apresentar sazonalidades e têm preço volátil, a empresa argentina de e-commerce Mercado Livre chegou a ultrapassar as gigantes tradicionais brasileiras Vale e Petrobras e a se tornar a maior empresa em valor de mercado da América Latina por alguns meses no ano passado.

A nova economia se baseia cada vez mais no mundo digital e o Brasil precisa recuperar o tempo perdido.

Um caminho

Para desenvolver produtos e serviços digitais exportáveis, as empresas brasileiras precisam ter acesso a mão de obra qualificada. Como se não bastasse o gap entre novas vagas para tecnologia e profissionais se graduando, o cenário cambial atual tem favorecido uma “fuga de cérebros” do Brasil.

Estamos em uma “sinuca de bico”. Às nossas empresas de tecnologia faltam mindset de internacionalização e capacidade financeira para reter os melhores talentos, pois as remunerações oferecidas em países ricos são significativamente maiores. Consequentemente, ficamos sem “gás” para acompanhar a concorrência internacional, que tem conseguido se consolidar e ampliar ainda mais este gap.

Não há outro caminho. Precisamos formar talentos em quantidade e qualidade suficiente para sairmos desta conjuntura, o que exige tempo e investimentos em educação.

O termo economia do conhecimento , popularizado por Peter Drucker no livro A Era da Descontinuidade, de 1969, vislumbrava a transição da sociedade industrial para a era da tecnologia da informação. Hoje, já é uma realidade e representa o atual estágio de desenvolvimento da economia global.

Quem não tem conhecimento e tecnologia perde o bonde da história

Relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), publicado em março do ano passado, estimava um déficit anual de 24 mil formandos em Tecnologia da Informação.

De acordo com o estudo, o país forma 46 mil pessoas com perfil tecnológico por ano e a necessidade das empresas chega a 70 mil. Com a aceleração da digitalização devido à pandemia, a expectativa é de que esse déficit aumente.

Conforme dados da Brasscom, de 2019 a 2024 devem ser abertas 421 mil vagas para profissionais de TI. A demanda será de 25% em Internet das Coisas, 11% em segurança, 10% em Big Data, 6% em Nuvem e 2% em Inteligência Artificial (AI), além da demanda por profissionais administrativos (19%), de nível técnico (14%) e em outras tecnologias (13%).

É um paradoxo cruel que um país que atingiu, em fevereiro, a triste marca de 14,4 milhões de desempregados não tenha profissionais qualificados suficientes para atender a essa demanda.

Com os investimentos públicos cada vez menores, diante das restrições orçamentárias para Ciência e Tecnologia e também para Educação , é hora das empresas de tecnologia brasileiras se mexerem e investirem na formação dos profissionais de TI do futuro se quiserem sobreviver e competir globalmente.

Aqui na Yaman, sempre incentivamos a formação de profissionais de TI. Em 2020 e neste ano, realizamos bootcamps totalmente gratuitos para a comunidade. Além disso, decidimos criar uma política de responsabilidade social com o Programa “3 passos para a frente Brasil”.

Com esta iniciativa, instituímos que, a cada três consultores que tivermos em nossa empresa a cada final de ano, doamos uma bolsa de estudo para alunos da rede pública de ensino aprenderem a programar durante um ano letivo. Como encerramos 2020 com 300 especialistas no time, começamos 2021 com a doação de 100 bolsas.

Se multiplicarmos políticas como esta, podemos transformar o futuro do país e a vida dos brasileiros. Temos tanta certeza de estarmos no caminho certo que vamos expandir o programa, envolvendo outras empresas para beneficiarmos mais jovens.

Com essa estratégia, o Brasil poderá colher bons resultados entre cinco e dez anos, com ganhos em competitividade para atuar no mercado externo. Depende de nós. Já passou da hora do setor de tecnologia liderar essa transformação no país.

Afonso Celso Dutra Acauan Filho é sócio-diretor da Yaman Tecnologia, consultoria de engenharia e qualidade de software e segurança cibernética

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