Há pouco mais de dez anos, uma revolução invisível, mas nada silenciosa tem invadido laboratórios, centros de pesquisa e vem conquistando espaço entre as indústrias brasileiras: a nanotecnologia. A ideia é mover átomos em uma escala nanométrica para a manipulação de uma série de materiais e, com isso, produzir uma infinidade de inovações para facilitar o dia a dia das pessoas. Para se ter uma ideia, um nanômetro corresponde a um bilionésimo de metro, o que seria como comparar a dimensão do planeta Terra com o tamanho de uma laranja.

E foi pensando nas potencialidades dessa tecnologia e no seu mercado nada nanométrico que a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e com a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), promoveu, nos dias 4 e 5 de outubro, a quinta edição Workshop Nanotecnologia Aplicada à Indústria.

“Esses encontros têm o objetivo de estimular e apoiar a indústria na utilização da nanotecnologia no seu processo produtivo, como fator de diferenciação do produto e para o aumento da competitividade da indústria brasileira. Já passamos por Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Goiânia, e escolhemos Florianópolis para finalizar 2018 porque é o estado líder no uso dessa tecnologia de fronteira”, explicou a especialista em Complexo da Saúde da ABDI, Cleila Pimenta.

No Brasil, o faturamento das 52 empresas fornecedoras de nanotecnologia ultrapassa os R$ 175 milhões, com um crescimento de 27% ao ano, numa média muito acima do mercado. Só o estado de Santa Catarina concentra mais da metade do total de empresas de nanotecnologia: são 26 empreendimentos que faturam cerca de R$ 40 milhões por ano.

Com quase 200 participantes, entre empresários, pesquisadores, investidores, estudantes e profissionais ligados à inovação, o workshop contou, no primeiro dia, com a apresentação de cases de sucesso, um painel de financiamento com representantes de bancos de investimento e de fomento, e uma palestra sobre Nanotecnologia em Sistemas Embarcados, apresentada pelo diretor do Instituto Senai de Inovação (ISI), André Luiz Pierre Mattei, e pelo pesquisador chefe do ISI, Eric Cardona Romani.

Jeitão de startup, tamanho de gigante

O case mais aguardado pelos participantes foi apresentado pela empresária Betina Giehl Zanetti Ramos. Farmacêutica, Betina contou que em 2008, decidiu deixar a academia para se tornar empreendedora. Junto com o marido Ricardo Ramos, criou a startup Nanovetores, pioneira no Brasil em sistemas de nanotecnologia e microencapsulação de ativos para cosméticos.

A empresária afirmou que só em 2012, quando a empresa recebeu investimento do fundo Criatec, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Banco do Nordeste, foi possível “dar um salto de inovação” e tornar-se sociedade anônima.

“A jornada de uma startup nunca é fácil. A dificuldade inicial foi sensibilizar o mercado sobre um produto novo, desconhecido e o pior, invisível, não palpável. Depois, esbarramos na dificuldade de obter garantias para o acesso ao crédito e agora estamos de olho na falta de regulamentação no Brasil”, lamentou. “Mesmo com todas as dificuldades, hoje, dez anos depois, temos certeza de que estamos no caminho certo e temos muito orgulho de ser uma empresa catarinense, brasileira e que está presente nos cinco continentes”, frisou.

Com crescimento exponencial e figurando por dois anos consecutivos no ranking da Revista Exame e da consultoria Deloitte, entre as dez Pequenas e Médias Empresas (PMEs) que mais crescem no Brasil, a Nanovetores está presente em 26 países, faturou, em 2017, R$ 10 milhões e projeta chegar a R$ 20 milhões este ano, com uma produção que chega a sete toneladas de insumos nanotecnológicos por dia.

“Nosso negócio é B2B (venda de empresa para empresa). Temos em nosso portfólio mais de 60 itens nanotecnológicos para atender as demandas da indústria. Atuamos no mercado de cosméticos, têxtil, veterinário e odontológico. E o nosso diferencial é a excelência dos produtos e a agilidade na entrega. Estamos crescendo, mas não perdemos o jeitão de startup, ágil e sempre com uma solução sob medida para as demandas do mercado”, destacou a empresária.

Entre os produtos de destaque no mercado que contam com o DNA da Nanovetores estão um creme antirrugas com poder de lifting em 90 segundos; tecidos com propriedades hidratantes, ativos repelentes e antimicrobianos; cremes redutores de celulite e medidas; antifúngico para unhas; condicionador superconcentrado, podendo ser vendido em embalagens de 25 ml, mas com rendimento de mais de 30 lavagens; entre outras soluções.

Os participantes também conheceram outros dois cases. O empresário Eduardo Holthausen Campos apresentou a empresa Cetarch, que usa a nanotecnologia para produzir cerâmicas de alta resistência à abrasão e ataques químicos.

“A partir do uso da nanotecnologia, conseguimos evitar o desgaste de nossas peças e promover maior durabilidade aos materiais”, explicou Campos que produz bombas, distribuidores, tubos, ciclones, injetores e outros produtos para a indústria de mineração, metalúrgica, siderúrgica.

O case da Extratos da Terra foi apresentado pelo diretor Joel Aterino de Souza. Com sede em Palhoça (SC), a Extratos foi criada em 1990, emprega 45 profissionais de alta qualificação e atua no mercado de dermocosméticos, utilizando alta tecnologia e ativos de última geração.

Com mais de 150 itens em seu portfólio, tendo maior atuação no mercado profissional (salões de beleza e clínicas de estética), a companhia passou a utilizar a nanotecnologia desde 2013.

“Com o uso da nano, melhoramos muito a eficácia dos nossos produtos, diversificamos o portfólio, reduzimos os desperdícios, o volume das embalagens, diminuímos os custos e ainda aumentamos em 38% nosso ticket médio de vendas no mercado profissional”, afirmou Souza, ao ressaltar que, a cada 90 dias, a empresa lança um novo produto. “Já temos todo o mapa de lançamentos para 2019″, adiantou o empresário, que tem planos de expandir as operações, até 2020, iniciando por Portugal.

Nano, um mercado astronômico

Se no Brasil, os números são grandes, em nível mundial são astronômicos. De acordo o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), estima-se que a nanotecnologia deve envolver quase 13 mil empresas de 56 países que, juntas, movimentam US$ 3 trilhões anuais, valor que deve saltar para US$ 5 trilhões até 2020.

Para o diretor de Desenvolvimento Institucional e Industrial da Fiesc, Carlos Henrique Ramos Fonseca, a nanotecnologia permite um amplo potencial de aplicação em importantes setores da indústria.

“É uma grande oportunidade de diferenciação que precisa ser considerada pelo nosso setor produtivo”, disse, ao ressaltar que a tecnologia da informação e da comunicação e os sistemas embarcados estão sendo integrados com nanosensores e nanoatuadores produzidos a partir de nanomateriais.

Fonseca destacou ainda estudo do Observatório FIESC, que aponta os setores de tecnologia da informação e comunicação (TIC), robótica & automação, biotecnologia, sustentabilidade e novos materiais como os com maior potencialidade de conexão à nanotecnologia.

“De forma convergente, essas atividades impulsionarão o movimento nacional da manufatura avançada, mais conhecida no Brasil como Indústria 4.0”, acrescentou.

O analista de políticas e indústria da CNI, Cristiano Silva, destacou a parceria da entidade com a ABDI como forma de estimular o desenvolvimento de nanotecnologia na indústria nacional.

“Há muito o que se fazer, inclusive fortalecendo a cooperação com a academia”, disse. “A nanotecnologia tem melhorado o desempenho de diversos setores industriais, que é uma das chaves para o desenvolvimento do setor”, acrescentou.

No segundo dia do encontro, os participantes fizeram visitas técnicas ao Instituto Senai de Inovação em Sistema Embarcados e às sedes das empresas Nanovetores e Extratos da Terra. Quem aproveitou as visitas para fazer network foi o casal de engenheiros químicos Janaina Seraglio (27) e João Pedro Zardo (24). Formados pela UnoChapecó e mestrandos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), eles pretendem abrir uma startup com foco em nanofertilizantes.

“Esse evento foi incrível. Muito inpirador pra gente. Infelizmente, na universidade o único foco é fazer pesquisas para virarem papers. Aqui, percebemos que o valor está na inovação voltada para o mercado”, analisou JANAÍNA. “Estamos tentando romper as barreiras da academia e montar nossa jornada com foco nesse incrível mercado de nanotecnologia. Por isso, essa troca de experiência foi muito valiosa”, ressaltou Zardo.

Fonte: ABDI

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