A inteligência artificial (IA) pode fazer muito pela sua saúde. As novas contribuições da tecnologia são significativas a ponto de mudar a prática da medicina e criar formas inéditas de medir o estado físico e emocional das pessoas. Estamos falando em mais do que ter um atendimento automatizado por um robô. Os sistemas de inteligência artificial usam dados e algoritmos, ou seja, sequências de cálculos matemáticos para fornecer aos profissionais da saúde novos pontos de visita em tratamentos e solucionar grandes desafios nesse campo.

Os dados digitalizados, que na área da saúde são tornados anônimos para preservar a privacidade do paciente, passaram a ser o principal medicamento no combate e prevenção de doenças. Isso porque os dados digitalizados permitem que os algoritmos de inteligência artificial descubram novas informações que irão guiar os tratamentos mais apropriados. Hoje, a IA já consegue até apontar quando um paciente está ficando doente mesmo antes do aparecimento de sintomas, viabilizando assim um atendimento individualizado e preventivo.

Na prática, imagine se o médico pudesse prever uma parada cardíaca a tempo de tomar providências para evitar que ela aconteça? Tecnologicamente falando, isso é possível. A Oschner Health utiliza inteligência artificial para indicar quais pacientes têm o coração sob risco de ter uma parada. A ferramenta analisa milhares de dados e aciona alertas que ajudam as equipes de atendimento do centro hospitalar a cuidar do paciente antes que este mal aconteça.

No futuro, a tendência é que a IA possa ajudar a diagnosticar mais cedo doenças difíceis de detectar apenas por meio de pesquisas que as pessoas fazem na web. Cientistas já usaram registros anônimos em sites de busca para identificar pessoas que apresentaram sinais de terem câncer de pâncreas – uma doença letal, que geralmente é identificada em estágio avançado, dificultando a cura. Para chegar a esses indícios, analisaram pesquisas na internet desses pacientes por sintomas da doença, para identificar padrões de sintomas mais propensos a apresentar um eventual diagnóstico.

Outra inovação com grande potencial de impacto na área da saúde surge da combinação entre análise genética e inteligência artificial. Essa união pode resultar em exames de sangue mais precisos que consigam ler o nosso sistema imunológico – que defende nosso corpo e, por isso, funciona também como um registro geral de doenças. A Adaptive Biotechnologies está trabalhando neste novo tipo de exame em que a IA ajudará a mapear todas as patologias que uma pessoa já teve, incluindo infecções, cânceres e transtornos autoimunes. Tudo isso para antecipar cada vez mais o diagnóstico de doenças, simplificar tratamentos e aumentar as chances de cura.

Além de viabilizar uma medicina personalizada e preventiva, a IA também tem o papel de humanizar a saúde. Para muitos, essa afirmação pode ser curiosa devido à imagem futurista de atendimentos robotizados, mas vemos que a IA tem o poder de aproximar os médicos dos seus pacientes. Um estudo no Annals of Internal Medicine mostra que os médicos gastam metade do seu tempo (49%) analisando exames e atualizando registros em vez de estar junto dos seus pacientes (27%). Com novas ferramentas, os profissionais diminuirão a rotina administrativa para poderem se concentrar mais na interação com o paciente.

Um exemplo é o InnerEye, uma ferramenta baseada em pesquisas que utiliza a IA para o planejamento de radioterapia. O objetivo do projeto é permitir que radiologistas e oncologistas obtenham contornos 3D dos escaneamentos de planejamento dos pacientes em minutos em vez de horas. Também é possível monitorar melhor a progressão da doença durante o tratamento, para sejam feitos ajustes de acordo com a resposta dos pacientes. Outro importante ganho para o paciente é a redução de tempo na sessão de radioterapia.

O ganho de eficiência no atendimento também será estendido para outros profissionais da saúde. Como é inviável para um hospital dedicar um enfermeiro exclusivamente para um paciente, o Hospital Nove de Julho tem sistema de câmeras inteligentes que utiliza IA para diminuir o risco de queda de pacientes nos quartos. Baseada em visão computacional, a ferramenta monitora os pacientes por meio de uma câmera que entende situações “de risco”, como grade da cama abaixada, leito vazio e outros casos que indicam quando o paciente pode estar na iminência de cair no chão. Quando um movimento de risco é reconhecido, o sistema emite um alerta à equipe de enfermagem para que o profissional se dirija ao quarto para verificar a situação e até mesmo evitar uma queda. O sistema preserva a privacidade do paciente pois dispensa a presença de uma pessoa observando as imagens – a IA faz esse serviço.

Todos os exemplos citados mostram que a IA tornará a medicina cada vez mais preventiva, o que permite a redução de custos. Tratamentos de prevenção são mais baratos comparados aos assistenciais focados na cura de doenças. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 30% e 50% das mortes por câncer poderiam ser evitadas com prevenção, detecção precoce e tratamento. O câncer custa para a economia global cerca de US$ 1,16 trilhão por ano.

Vale enfatizar que somente no Reino Unido, por exemplo, existem apenas 4,7 radiologistas por 100 mil habitantes, e esse número precisará quase dobrar até 2022 para atender à demanda. Devido a essa escassez, o National Health Service (NHS) gastou cerca de 88 milhões de libras em 2016, pagando por registros de radiologia em atraso para serem relatados – o mesmo valor poderia ter pago por mais de mil consultores em tempo integral.

Acreditem, certamente a IA irá melhorar muito a nossa saúde. Vemos que o uso desta tecnologia pode ajudar a diminuir a pressão sobre os sistemas de saúde ao mesmo tempo que melhora o atendimento ao paciente e reduz custos. No final, os médicos poderão usar seu tempo para estar com seus pacientes ou trabalhando em diagnósticos mais complexos. Por isso, reafirmo, a AI nos permite olhar para o futuro da saúde muito além de robôs.

Rico Malvar

Henrique (Rico) Malvar é engenheiro e cientista-chefe do Microsoft Research. Nesse papel, ele supervisiona projetos colaborativos entre diversos laboratórios da empresa e também gerencia o grupo MSR NExT Enable, que busca ajudar pessoas com deficiência.

Anteriormente, Rico foi diretor administrativo de Pesquisas da Microsoft em Redmond e, antes disso, foi pesquisador principal e fundador e gerente do grupo de Comunicações, Colaboração e Processamento de Sinais da área de Pesquisa da empresa. É inventor ou co-inventor de 119 patentes emitidas nos EUA e tem mais de 160 artigos técnicos em revistas, além de conferências, relatórios técnicos e contribuições de normas.

Fonte: Uol Tecnologia

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